Iniciativa “Code Her”, criada pela AlmapBBDO, usa tecnologia para agir antes que o dano aconteça dentro da plataforma de Elon Musk.
O Boticário lançou o Code Her, um bot dentro do X (antigo Twitter) que monitora imagens publicadas por mulheres e impede que o Grok, a inteligência artificial da plataforma, manipule essas fotos sem consentimento. A ação chega em um momento crítico: denúncias de crimes cibernéticos contra mulheres cresceram 224,9% no último ano, segundo a SaferNet, revelando a urgência de soluções práticas que vão além do discurso.
Code Her: como o bot bloqueia a sexualização de mulheres
O mecanismo do Code Her foi desenvolvido para ser simples e acessível. A usuária acessa o site do projeto, aceita os termos de uso e passa a marcar @botcodeher nas publicações que deseja proteger. A partir daí, o bot assume o controle.
Se alguém tentar sexualizar ou alterar uma imagem monitorada por meio do Grok, a foto simplesmente não é exibida. Ao mesmo tempo, a dona da imagem recebe um alerta imediato acompanhado de orientações legais sobre como agir. A resposta acontece antes do dano, não depois que ele já se espalhou.
Esse detalhe muda tudo. Campanhas de conscientização sobre violência digital costumam oferecer informação, mas raramente entregam uma ferramenta funcional que age em tempo real. O Code Her representa uma mudança de postura: sai do campo simbólico e entra no campo da proteção concreta.
AlmapBBDO, Marina Sena e Rose Leonel no centro da campanha
A criação é da AlmapBBDO, agência responsável por dar forma à estratégia de comunicação do projeto. A campanha tem como protagonistas a cantora Marina Sena e Rose Leonel, jornalista que batizou a lei brasileira contra pornografia de vingança depois de ser ela própria vítima desse crime no início dos anos 2000.
A presença de Rose Leonel não é apenas simbólica. Ela conecta o projeto a uma história real de impunidade, resistência e transformação legislativa, dando ao Code Her um peso que vai além da ativação de marca.
A iniciativa também inclui uma cartilha educativa com informações sobre as principais legislações relacionadas ao tema. São abordadas a Lei Rose Leonel, a Lei Carolina Dieckmann, a Lei Maria da Penha e o Marco Civil da Internet, tornando o projeto uma referência jurídica acessível para mulheres que enfrentam esse tipo de violência.
IA generativa, Grok e o risco que virou cotidiano
A inteligência artificial generativa transformou os deepfakes de um problema restrito a celebridades em um risco enfrentado por qualquer mulher com presença digital. E o ambiente do X, sob o comando de Elon Musk, é frequentemente apontado como um espaço com pouca moderação efetiva.
Qualquer foto pública disponível na plataforma pode se tornar material para manipulação. A velocidade com que isso ocorre supera, em muito, a capacidade de resposta das próprias plataformas. O intervalo entre o abuso e a disseminação da imagem alterada pode ser de minutos.
Nesse contexto, o Code Her se posiciona como uma resposta direta a uma lacuna estrutural. Enquanto as grandes plataformas debatem políticas, o bot já está operando, identificando tentativas de sexualização não consentida e interrompendo o ciclo antes que ele se complete.
Impacto e o que essa iniciativa representa para o mercado
O Code Her é um exemplo raro de campanha de causa que entrega um produto funcional. A maioria das ativações nesse segmento se encerra no filme, no manifesto ou no post patrocinado. Aqui, existe uma tecnologia operacional que resolve um problema concreto para usuárias reais.
Do ponto de vista de marca, o Boticário amplia seu posicionamento histórico de defesa das mulheres para o território da segurança digital, um espaço ainda pouco ocupado por marcas de consumo. A combinação entre tecnologia proprietária, legislação e figuras públicas com histórias reais confere ao projeto credibilidade difícil de replicar.
O crescimento de 224,9% nos crimes cibernéticos contra mulheres confirma que esse não é um problema futuro. É presente, urgente e escalável. Iniciativas como o Code Her sinalizam que o setor privado pode, e talvez deva, preencher as lacunas que governos e plataformas ainda não cobrem.

