A disputa bilionária entre a Netflix e o TikTok pode redefinir os limites legais da inteligência artificial na indústria do entretenimento global.
A Netflix enviou uma notificação extrajudicial à ByteDance, controladora do TikTok, ameaçando um processo bilionário por violação de direitos autorais. No centro da crise está o Seedance 2.0, gerador de vídeos por inteligência artificial da empresa chinesa, acusado de usar séries como “Stranger Things” sem qualquer autorização para treinar seus algoritmos. O caso veio a público em 19 de fevereiro de 2026 e promete ser um dos maiores embates jurídicos da era da IA.
Netflix e TikTok: ‘Stranger Things’ no centro da disputa por direitos autorais
A acusação da Netflix é detalhada e direta. A empresa aponta o uso indevido de produções de sucesso global como “Stranger Things”, “Round 6” e “Bridgerton” nos dados de treinamento do modelo de inteligência artificial da ByteDance.
O caso mais delicado, no entanto, envolve a animação “Guerreiras do K-Pop”, indicada ao Oscar e com quarta temporada recentemente lançada. Segundo a notificação, o Seedance 2.0 estaria gerando vídeos que reproduzem com fidelidade figurinos inéditos dos novos episódios, antes mesmo de qualquer licenciamento comercial.
A diretora de litígios da Netflix, Mindy LeMoine, classificou a tecnologia como um “motor de pirataria de alta velocidade”. Segundo ela, o Seedance 2.0 é capaz de produzir obras derivadas em escala massiva, utilizando universos narrativos protegidos de forma completamente ilícita.
“A Netflix não ficará de braços cruzados enquanto a ByteDance trata nossa propriedade intelectual como material gratuito de domínio público”, afirmou LeMoine.
TikTok não está sozinho no alvo da indústria do entretenimento
A Netflix não enfrenta essa batalha de forma isolada. Disney e Warner Bros. também formalizaram protestos contra a plataforma nos últimos dias, ampliando o peso das acusações sobre a ByteDance.
A Motion Picture Association (MPA), que representa estúdios como Sony e Prime Video, emitiu alertas sobre ações judiciais coletivas. O estopim foram vídeos viralizados do Seedance 2.0 simulando atores como Tom Cruise e Brad Pitt em cenas ultrarrealistas de ação, o que acendeu o sinal de alerta em toda a indústria.
Do lado da ByteDance, o argumento central é o conceito de “fair use” (uso justo). A empresa defende que o uso de dados para treinamento de IA se enquadra em uma categoria de uso limitado e transformador, protegida pela legislação americana.
A Netflix rebate com firmeza: usar obras protegidas para construir um produto comercial concorrente, que frequentemente reproduz o original, descaracteriza qualquer proteção legal desse tipo. É exatamente nesse ponto que reside a disputa jurídica mais complexa do caso.
No dia 16 de fevereiro, a ByteDance anunciou medidas para reforçar os controles de segurança do Seedance 2.0, numa tentativa de acalmar a indústria. As promessas, porém, não foram suficientes para frear a ofensiva jurídica da Netflix.
O precedente jurídico que pode transformar o futuro da IA
O embate entre Netflix e TikTok tem potencial para se tornar o primeiro grande julgamento de direitos autorais da era da inteligência artificial generativa em escala global. O resultado pode estabelecer precedentes que afetarão o desenvolvimento de ferramentas de IA em todo o mundo por décadas.
A questão vai além do conflito entre duas empresas. Ela toca em um problema estrutural do setor: até onde as empresas de tecnologia podem ir ao treinar modelos de IA com conteúdo protegido por direitos autorais? A ausência de regulamentação clara criou uma zona cinzenta que favorece o avanço tecnológico em detrimento dos criadores de conteúdo.
Séries como “Stranger Things” representam investimentos de centenas de milhões de dólares em produção, roteiro e propriedade intelectual. O uso não autorizado desse material para alimentar sistemas de IA generativa é visto pela indústria como uma ameaça direta ao modelo de negócio do entretenimento premium.
Enquanto o Seedance 2.0 permanece no centro da tempestade, produtoras, plataformas e advogados especializados observam cada movimento do processo. A resolução desse caso, seja por acordo extrajudicial ou decisão judicial, deverá definir novos contornos para o uso de inteligência artificial generativa em um setor que movimenta trilhões de dólares globalmente.
O que a Netflix exige do TikTok
O documento enviado à ByteDance não apenas critica a prática, mas estabelece exigências claras. Entre elas:
– Interromper imediatamente a geração de conteúdos que reproduzam personagens, títulos ou cenários protegidos pela Netflix.
– Remover dos bancos de dados de treinamento qualquer material obtido ilegalmente.
– Apagar todos os vídeos já publicados que utilizem propriedade intelectual da empresa.
– Fornecer um relatório detalhado sobre casos em que a IA gerou conteúdos com base em comandos relacionados às obras da Netflix.
– Revogar o acesso de parceiros ou usuários de API que estejam criando obras derivadas não autorizadas.

