Estudo revela que anúncios digitais perdem para vídeos de animais em pasto na disputa pela atenção do consumidor.
Vacas geram mais engajamento do que mais da metade de tudo que a indústria publicitária produz. O dado não é provocação criativa nem exagero retórico. É o resultado de um estudo que mediu resposta emocional e atenção em diferentes tipos de conteúdo e chegou a uma conclusão que o mercado prefere não admitir: mais de 50% dos anúncios geram menos engajamento emocional do que vídeos de bovinos parados em um campo verde. Em 2026, com investimento global em mídia ultrapassando 1 trilhão de dólares por ano, a publicidade perdeu para o pasto.

Vacas geram mais engajamento porque a Publicidade parou de surpreender
O problema não é novo, mas o tamanho dele está ficando impossível de ignorar.
O cérebro humano precisa de pelo menos 2,5 segundos de atenção ativa para começar a formar memória publicitária. Esse é o patamar mínimo para que um anúncio deixe qualquer rastro. O dado que acompanha esse número é o que deveria travar reuniões de briefing em todo o setor: menos de 5% das impressões em social media atingem esse tempo mínimo.
O restante passa. Bate na testa e vai embora. Pasta de dente, carro novo, garrafa térmica, todos disputam o mesmo espaço e perdem para o scroll automático de quem já desenvolveu imunidade ao formato.
Conteúdos sem carga emocional ou criatividade distintiva performam pior do que estímulos naturais aleatórios quando o critério é atenção e resposta emocional. Observar animais livres ou alguém descascando uma banana provoca mais reação genuína do que o mix de jingle, dança coreografada e influenciador selecionado após semanas de aprovação interna.
O trilhão de dólares que não está construindo memória
Cerca de 70% do investimento global em mídia está concentrado em canais digitais e programáticos. O volume nunca foi tão alto. A memória de marca nunca foi tão rara.
Eduardo Cabral, profissional de marketing e autor da análise que reacendeu esse debate, aponta a raiz do problema com precisão: a normalização da neutralidade criativa. O ciclo funciona de forma previsível. Uma campanha performa bem, vira referência, vira benchmark, vira template e se transforma em padrão de mercado. Todos replicam. O público aprende a ignorar. O setor, em vez de romper o ciclo, acelera a produção do mesmo conteúdo com ferramentas mais rápidas.
Quando todos usam os mesmos datasets, os mesmos prompts, as mesmas referências e os mesmos benchmarks, o resultado não é criatividade ampliada. É homogeneização em escala.
O publicitário Marcelo Serpa nomeou esse estado em entrevista recente ao Reclame: “Ninguém tá pensando em inovar, é como se pensássemos em campanha com resultado instantâneo, não tem espaço para experimentação.”
CPMs inflacionados e retorno em queda
A migração massiva para ambientes programáticos já tem efeitos documentados e visíveis.
CPMs inflacionados, frequência excessiva de exposição e retorno marginal decrescente são os sintomas mais recorrentes. O mercado paga cada vez mais para alcançar pessoas que desenvolveram a habilidade de ignorar o que chega até elas. Já adquirimos o vício de encaminhar conteúdos orgânicos que nem terminamos de consumir. Quando se trata de publicidade, o descarte é ainda mais imediato.
A promessa de eficiência via automação e inteligência artificial tornou-se, na prática, uma justificativa para produzir mais do mesmo com menos atrito interno. A ideia de que “agora é diferente porque é automatizado” não resiste aos dados históricos do setor.
Campanhas orientadas exclusivamente à performance de curto prazo perdem eficiência ao longo do tempo. Big ideas criativas geram crescimento de market share no longo prazo com menor dependência de mídia pesada. Esse não é um argumento nostálgico. É uma regularidade documentada em décadas de estudos sobre eficácia publicitária.
O que o setor decide fazer enquanto as vacas vencem
Criar exclusivamente para algoritmo é aceitar jogar sempre no passado. Algoritmos reconhecem padrões que já funcionaram antes. Não recompensam o novo, não distribuem o inédito, não amplificam o inesperado.
Cultura não nasce de template. Não nasce de best practice nem de prompt bem estruturado. Ela nasce de leitura sensível do contexto, de diagnóstico de pesquisa, de verdades humanas reconhecíveis e de ideias que não parecem anúncios porque entram na vida das pessoas em vez de interrompê-las.
O cenário de 2026 coloca o mercado diante de uma escolha direta. Seguir produzindo mais do mesmo com ferramentas mais rápidas ou recuperar a coragem de criar algo que as pessoas não esperem, não ignorem e não esqueçam no segundo seguinte.
Enquanto essa decisão não for tomada com seriedade, vacas geram mais engajamento do que boa parte do que a indústria produz. E o pasto continuará ganhando.
Fonte: Matéria do Artigo de Eduardo Cabral para o site UpDateOrDie

