ByteDance mira autorização do Banco Central para transformar o aplicativo em uma plataforma de serviços financeiros para brasileiros.
A TikTok está em busca de uma licença fintech no Brasil para atuar com empréstimos e pagamentos no país. Controlada pela gigante chinesa ByteDance, a plataforma solicitou ao Banco Central duas autorizações distintas que, juntas, permitiriam oferecer serviços financeiros básicos a seus mais de 131 milhões de usuários adultos ativos em território nacional.
TikTok fintech: as duas licenças solicitadas ao Banco Central
O primeiro pedido enquadra o TikTok na categoria de “emissora de moeda eletrônica”. Na prática, isso significa que os usuários poderiam criar contas pré-pagas dentro do próprio aplicativo, receber valores, manter saldo e realizar pagamentos sem sair da plataforma.
A segunda solicitação é para operar como “empresa de crédito direto”, uma modalidade regulamentada que não permite a captação de depósitos públicos, mas autoriza a concessão de empréstimos com capital próprio ou a intermediação entre tomadores e credores.
A aprovação das duas licenças juntas abriria ao TikTok uma frente de negócios completamente nova no Brasil, seguindo um caminho que o Nubank já percorreu e que transformou o país em um dos maiores mercados de bancos digitais do mundo.
Reunião com o Banco Central e histórico global da ByteDance
A movimentação ganha contornos mais concretos quando se observa a agenda pública do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Na manhã desta terça-feira, 31 de março de 2026, ele recebeu executivos da ByteDance em Brasília, entre eles o chefe de Pagamentos Globais da companhia, Liao Baohua.
Nem o TikTok nem o Banco Central confirmaram os planos ou comentaram os detalhes das conversas. As informações foram divulgadas por duas fontes com conhecimento direto do assunto, que pediram anonimato em razão da confidencialidade dos planos.
Não está claro se a intenção da empresa é lançar um portfólio amplo de serviços financeiros ou apenas criar infraestrutura de suporte para o comércio eletrônico e a monetização de conteúdo já existentes na plataforma.
A ByteDance tem histórico nesse segmento. Em 2021, lançou o Douyin Pay na China para suportar transações dentro do Douyin, versão local do TikTok, entrando em concorrência direta com Alipay e WeChat Pay, as duas maiores plataformas de pagamento do país.
A trajetória na Indonésia, contudo, foi turbulenta. Em 2023, o TikTok solicitou uma licença de pagamentos naquele mercado, mas foi impedido de processar transações diretamente. A solução encontrada foi buscar parcerias com empresas locais para viabilizar as operações.
Licença fintech e a estratégia de longo prazo da ByteDance no Brasil
A busca por uma licença fintech no Brasil não é um movimento isolado. Ela se encaixa em uma estratégia maior de enraizamento da ByteDance no país.
No final de 2025, a empresa anunciou um investimento superior a 200 bilhões de reais (aproximadamente US$ 38,4 bilhões) na construção de um centro de dados no Brasil. O aporte sinaliza uma aposta de longo prazo em um mercado que combina altíssima penetração das redes sociais com uma população jovem e familiarizada com serviços financeiros digitais.
Os números reforçam o potencial: segundo a empresa de pesquisa DataReportal, o TikTok encerrou 2025 com 131 milhões de usuários adultos no Brasil, com seus anúncios alcançando 80% de todos os adultos do país. Esse alcance representa uma base de clientes em potencial que poucos players financeiros conseguem rivalizar.
O modelo que o TikTok parece querer replicar já foi validado no Brasil pelo Nubank, que construiu um dos maiores bancos digitais do planeta a partir de uma conta sem tarifas e produtos de crédito acessíveis. A diferença é que o TikTok chega com uma vantagem que nenhum banco tem: uma plataforma de entretenimento com mais de um quarto da população adulta brasileira já engajada diariamente.
A integração entre conteúdo, comércio e serviços financeiros dentro de um único aplicativo é uma tendência consolidada na Ásia e que ainda não encontrou um protagonista dominante no Ocidente. Se as licenças forem aprovadas pelo Banco Central, o Brasil pode se tornar o primeiro grande laboratório global dessa aposta da ByteDance fora do mercado asiático.

