Cofundador da Reserva conduziu masterclass no primeiro dia do Fórum E-Commerce Brasil 2026, mostrando como cultura, escuta e autonomia do time levaram a marca de R$400 milhões a R$2 bilhões de faturamento
Rony Meisler, cofundador da Reserva e hoje à frente da Manual de Donos e da Rebels Ventures, liderou uma masterclass no primeiro dia do Fórum E-Commerce Brasil 2026, no Distrito Anhembi, em São Paulo. Na palestra, o empresário compartilhou os princípios de gestão e construção de marca que ajudaram a Reserva a sair de R$400 milhões em faturamento em 2018 para R$2 bilhões em 2024, antes de a empresa ser vendida ao Grupo Arezzo, em 2020.
Rony Meisler e o erro que virou marca
Rony Meisler abriu a masterclass com um episódio real da Reserva: uma colaboradora da área de compras errou e encomendou mil camisas polo infantis em vez de 100. Em vez de punir o erro, a liderança delegou à própria responsável a missão de resolver o problema. A solução foi distribuir as peças pelas lojas como oferta especial de Dia dos Pais. O estoque acabou em uma semana e o episódio deu origem à Reserva Mini, marca infantil da companhia. A colaboradora que cometeu o erro se tornou, tempo depois, CEO dessa vertical.
Para Rony, o caso resume o estilo de gestão que orientou o crescimento da marca: confiança nas soluções do time, autonomia para executá-las e capacidade de transformar erros em oportunidades de negócio.
Poder para quem está perto do cliente
Se o cliente é o centro do negócio, argumenta Rony Meisler, quem está mais próximo dele deveria ocupar posição central nas decisões. Na Reserva, o vendedor passou a ser ouvido no desenvolvimento de produtos e na organização das lojas. A empresa treinou mais de 2.500 profissionais da linha de frente para produzir e editar conteúdo, transformando-os em porta-vozes da marca nas redes sociais.
Crescer a partir do que a empresa já sabe fazer
Rony Meisler descreveu quatro frentes de crescimento: conquistar novos clientes, elevar preço ou tíquete médio, aumentar a recorrência de compra ou criar uma nova categoria, sendo esta última a mais complexa. Marcas como Reserva Mini, Oficina Reserva, Reversa e Reserva Simples compartilhavam fornecedores, logística, tecnologia e canais de venda com a marca original. A operação de vestuário para clubes de futebol seguiu a mesma lógica e gerou R$300 milhões em receitas anuais adicionais, aproveitando a cadeia de fornecimento que a empresa já dominava.
Escuta como matéria-prima da inovação
Para Rony, inovar é identificar um problema e resolvê-lo, e a tecnologia entra depois da escuta, não antes dela. A Reserva chegou a mapear 359 jornadas de clientes em busca de pontos de contato para superar expectativas. Uma das práticas era ligar para o cliente uma semana após a compra, sem oferecer nada, apenas para saber se estava tudo certo. Quem recebia essa ligação apresentava 97% de probabilidade de comprar novamente em até 30 dias.
A lógica de testar rápido também apareceu na origem da Oficina Reserva, marca de básicos premium sem logomarca: a primeira loja temporária nasceu de uma demanda identificada em grupo focal e, na semana de estreia, vendeu mais que as outras três lojas da mesma categoria no shopping somadas.
Cultura como vantagem competitiva
Rony defendeu trocar o “CEO” pelo que chama de “CVO“, Chief Vassoura Officer: a liderança deveria apontar direção, alinhar incentivos e remover obstáculos do caminho da equipe, com conversas semanais de retorno entre líderes e liderados.

Entre as práticas de cultura citadas na palestra estão:
- Contratação de profissionais com mais de 70 anos para atuar nas lojas, após uma experiência pessoal de Rony com uma vendedora idosa nos Estados Unidos
- Licença-paternidade de 45 dias para todos os funcionários
- Programa “Bota na Vitrine”, em que colegas reconheciam publicamente contribuições de outros departamentos, premiadas com a realização de um sonho pessoal
Produto para clientes, não clientes para produtos
Rony descreveu o funil que batizou de ACP (audiência, comunidade, produto): a empresa gera interesse em redes e canais de comunicação, reúne as pessoas mais engajadas em uma comunidade e só desenvolve produtos quando existe demanda real identificada nessa conversa. O mesmo processo guiou o lançamento da Manual de Donos, plataforma de educação em negócios que Rony criou depois de reunir uma newsletter gratuita com 2 milhões de leitores.
Impacto social como fidelização
Desde 2016, a Reserva mantém o programa 1P5P, em parceria com bancos de alimentos: a cada peça vendida, a empresa destina recursos para complementar cinco refeições de pessoas em situação de insegurança alimentar. O programa já soma mais de 160 milhões de refeições complementadas, e Rony relatou que clientes passaram a associar a compra de uma peça a “deixar cinco ou dez pratos”, reforçando a identificação com a marca.
Rony encerrou a masterclass junto a outros palestrantes e cofundadores que, como ele, passaram por diferentes ciclos da Reserva até a venda ao Grupo Arezzo, em 2020. Ele liderou a companhia como executivo até 2024, quando deixou a operação para fundar a Rebels Ventures, voltada a apoiar novos empreendedores, e assumir a frente da Manual de Donos.

