Brahma, Casas Bahia, TecToy e outras apostaram em promoções condicionadas à sexta taça, mas a derrota para a Noruega, nas oitavas de final, encerrou todas as apostas
A Copa do Mundo de 2026 movimentou não só a torcida brasileira, mas também o departamento de marketing de dezenas de marcas que decidiram apostar suas fichas na conquista do hexa. Em vez de campanhas tradicionais, várias empresas optaram por promessas condicionadas ao resultado da Seleção Brasileira em campo, transformando o desejo popular pela sexta estrela em gatilho de vendas e de engajamento. Com a derrota para a Noruega por 2 a 0, no domingo, 5 de julho, nas oitavas de final, todas essas apostas comerciais deixaram de valer.
Brahma prometia cerveja grátis em todo o país
A aposta mais ousada entre as marcas veio da Brahma. Como parte da plataforma “Tá Liberado Acreditar”, criada pela agência Africa e estrelada por Ronaldo Fenômeno e pelo técnico Carlo Ancelotti, a cervejaria da Ambev prometeu liberar cerveja de graça para todo o país caso a Seleção conquistasse o hexa.
A mecânica previa:
- Resgate de um pack de cerveja pelo aplicativo Zé Delivery ou em supermercados participantes
- Possibilidade de retirada de uma garrafa de 600 ml em bares credenciados
- Limite de um resgate por CPF, exclusivo para maiores de 18 anos
- Validade de, no mínimo, um dia após a conquista do título, com possibilidade de extensão
Segundo Felipe Cerchiari, diretor das marcas Core da Ambev, a proposta buscava compensar simbolicamente os 24 anos sem título mundial. Curiosamente, o próprio filme da campanha já antecipava o desfecho real: as cenas iniciais mostravam dois rapazes conversando, um deles dizendo não ser mais possível acreditar no Brasil, para só então reverter o tom rumo ao otimismo. Com a queda nas oitavas, a operação logística de distribuição gratuita nunca chegou a ser ativada.
Casas Bahia apostou o carnê e prometeu Pix a cada vitória
A Casas Bahia foi a marca mais agressiva no varejo, lançando duas campanhas distintas ligadas ao hexa, ambas criadas pela agência Pullse e estreladas pela embaixadora Beatriz Reis (a Bia do Brás) ao lado do pentacampeão Denilson.
A primeira, batizada de “Brasil campeão, carnê quitado na mão”, prometia quitar o saldo devedor do carnê de clientes que comprassem TVs de 65 polegadas ou mais entre 26 de março e 5 de abril, caso o Brasil erguesse a taça do Mundial.
Paralelamente, a rede lançou a promoção “Ganhou é Pix”, em parceria com o Casas Bahia Pay (banQi), que premiava com valores entre R$ 50 e R$ 1.000 os clientes que comprassem TVs participantes antes de cada jogo do Brasil, desde que a Seleção vencesse a partida. Diferente da promoção do carnê, essa ação chegou a pagar prêmios ao longo do torneio, encerrando-se automaticamente no momento da eliminação nas oitavas de final.
TecToy prometia reembolso de 50% em handhelds
No setor de tecnologia, a TecToy apostou no hexa para impulsionar as vendas de seus PCs portáteis Zeenix Lite e Zeenix Pro. Quem comprasse um dos dois modelos pelo e-commerce oficial da marca entre 11 de junho e 7 de julho teria direito a um voucher equivalente a 50% do valor pago, caso o Brasil conquistasse o hexacampeonato.
O crédito, que chegaria a cerca de R$ 1.300 no caso do Zeenix Pro (R$ 4.999,99), seria destinado a compras futuras na loja oficial da marca em até 30 dias após o fim do Mundial. Com a eliminação do Brasil, a promoção se encerra sem gerar nenhum voucher.
Taco Bell distribuiu tacos independentemente do resultado
Nem toda ação vinculada ao clima da Copa dependia da vitória. A Taco Bell decidiu distribuir gratuitamente 25 mil tacos ao longo do torneio, com até 200 unidades por loja, sempre no dia seguinte aos jogos da Seleção, chovesse ou fizesse sol no placar.

A dinâmica pedia que o consumidor fosse à loja e exibisse seu “mood de torcedor”, feliz com a vitória ou “triste e com raiva” por derrota ou empate, para ter direito ao taco gratuito. A ação faz parte da plataforma global L.O.C.O.S (Loss Or Celebration Outcome Support) da marca e também esteve presente na Arena Brasileira, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, distribuindo tacos nos dias de jogo.
Uber criou uma sexta estrela simbólica, mas sem custo
Outras marcas optaram por gestos simbólicos, sem promessa financeira atrelada ao resultado. A Uber, patrocinadora da CBF, lançou o “Modo Hexa”: uma sexta estrela na avaliação dos motoristas parceiros, disponível exclusivamente para usuários brasileiros entre junho e julho, dentro da campanha “Chega Junto”, estrelada por Ronaldinho Gaúcho. O recurso era puramente visual e não dependia do resultado da Seleção para funcionar, seguindo ativo durante toda a campanha do Brasil no torneio.
Na mesma linha, a Volkswagen voltou como patrocinadora da Seleção com o filme “Sonhos”, da AlmapBBDO, também protagonizado por Ancelotti, que imaginava o dia da conquista da sexta estrela sem prometer nenhum benefício tangível ao consumidor. O Itaú, por sua vez, apostou mais uma vez no hino “Mostra Tua Força, Brasil” como plataforma de marca, brincando com o fato de que a canção também carrega lembranças de derrotas passadas.
Por que as marcas apostam nesse tipo de promoção
A estratégia de vincular benefícios ao desempenho da Seleção Brasileira não é nova, mas ganhou força nesta Copa por conta do simbolismo do hexa: uma conquista que uma geração inteira de brasileiros nascidos após 2002 nunca viveu. Ao condicionar o benefício a um evento improvável, mas emocionalmente carregado, as marcas conseguem gerar bastante buzz e volume de vendas antecipadas sem necessariamente arcar com o custo do prêmio, já que a eliminação em qualquer fase anterior à final encerra a obrigação.
O resultado da campanha brasileira nesta edição reforça um risco inerente a esse tipo de aposta: quando o time cai antes da hora, marcas que investiram pesado em construir a narrativa da esperança, caso de Brahma, Volkswagen e Itaú, todas com filmes publicitários girando em torno do sonho do hexa, precisam lidar com o fim abrupto do enredo. A eliminação nas oitavas também frustrou parte da estratégia de mídia da Copa, incluindo a disputa de audiência entre Globo e CazéTV, que vinham no auge das transmissões justamente na fase em que o Brasil caiu.

