A guerra pelos profissionais criativos acaba de esquentar brutalmente.
Com o lançamento do Creator Studio, a Apple declarou guerra aberta à Adobe, gigante que domina o mercado criativo há mais de 30 anos. Mas será que a reunião de Logic Pro, Final Cut Pro e apps premium em uma única assinatura é suficiente para derrubar o império do Photoshop e Premiere Pro? A resposta não é simples, e os números revelam uma batalha muito mais complexa do que parece.

O que cada lado oferece
O Creator Studio custa R$ 39,90 mensais e inclui Final Cut Pro, Logic Pro, Motion, Compressor e recursos premium em Keynote, Pages e Numbers. É um pacote voltado especialmente para editores de vídeo e produtores musicais que já vivem no ecossistema Apple.

A Adobe Creative Cloud completa sai por R$ 254,00 mensais, mas entrega mais de 20 aplicativos: Photoshop, Illustrator, Premiere Pro, After Effects, Lightroom, InDesign, Audition e uma lista que cobre praticamente todas as áreas criativas imagináveis.

Apenas em quantidade, a Adobe leva vantagem brutal. Enquanto a Apple foca em edição de vídeo e áudio, a Adobe domina design gráfico, fotografia, motion graphics, web design, diagramação, edição de PDF e até prototipação de UX.
Performance: onde a Apple brilha
A grande arma da Apple está na otimização. Final Cut Pro renderiza vídeos 4K até 3x mais rápido que o Premiere Pro em chips M3, segundo benchmarks independentes. O Logic Pro processa plugins nativos com latência próxima de zero, algo que o Audition da Adobe não consegue replicar com a mesma fluidez.
Isso acontece porque os apps da Apple são desenvolvidos especificamente para o hardware Apple Silicon. Cada linha de código foi otimizada para trabalhar com a arquitetura unificada de memória dos chips M1, M2 e M3. O resultado? Menos travamentos, menor consumo de bateria e exportações mais rápidas.
Já a Adobe precisa manter compatibilidade com Windows e dezenas de configurações diferentes de hardware. Seus apps rodam em qualquer máquina, mas isso cobra um preço: são mais pesados, exigem mais RAM e frequentemente travam em equipamentos medianos.
Para editores de vídeo que trabalham com prazos apertados, essa diferença de performance pode justificar a migração sozinha.
Funcionalidades: onde a Adobe domina
Se você trabalha com fotografia profissional, design gráfico ou motion graphics complexo, a Adobe ainda é insubstituível. O Photoshop possui 35 anos de desenvolvimento e dezenas de recursos que nenhum app da Apple sequer tenta replicar. O After Effects é padrão da indústria para efeitos visuais, com bibliotecas gigantescas de plugins e templates.
O Illustrator domina o design vetorial. O InDesign é essencial para diagramação editorial. O Lightroom é o workflow preferido de fotógrafos profissionais. A Apple simplesmente não tem equivalentes diretos para essas ferramentas.
Além disso, a Adobe criou um ecossistema integrado impressionante. Você pode começar um projeto no Illustrator, importar para o After Effects, editar no Premiere Pro e finalizar no Photoshop, tudo com arquivos nativos e transições suaves entre programas.
A Apple até tenta essa integração, mas Final Cut Pro e Logic Pro conversam mal entre si. O ecossistema dela é mais fragmentado.
A questão do público-alvo
A Apple está mirando um nicho específico: criadores de conteúdo digital, YouTubers, podcasters e produtores independentes que trabalham principalmente com vídeo e áudio. Para esse público, o Creator Studio entrega 90% do necessário por 83% do preço da Adobe.
A Adobe atende desde estudantes de design até agências globais de publicidade. Seu público é gigantesco e diversificado. Uma empresa de arquitetura usa InDesign para apresentações. Uma revista usa Photoshop e Illustrator para capas. Um estúdio de VFX depende do After Effects. A Apple não compete nesses mercados.
Compatibilidade e colaboração
Aqui a Adobe massacra. Seus arquivos são padrão universal. Qualquer estúdio no mundo abre um projeto Premiere Pro ou Photoshop. Agências colaboram remotamente usando Creative Cloud com versionamento nativo.
Já os arquivos do Final Cut Pro só abrem em Macs. Se você trabalha com clientes ou equipes que usam Windows, precisa exportar XMLs e arquivos intermediários, perdendo tempo e informações. Para freelancers que atendem múltiplos clientes, isso é um problema real.
A Adobe também domina em plugins e recursos de terceiros. O ecossistema de extensões, presets e templates é incomparavelmente maior. Mercados inteiros existem vendendo assets para Premiere Pro e After Effects.
O fator preço e fidelização
Por US$ 10 a menos por mês, a Apple oferece menos ferramentas, mas com performance superior nas áreas que cobre. Para quem só precisa de edição de vídeo e áudio, é uma oferta tentadora.
Mas a Adobe construiu algo mais poderoso que apps: ela construiu dependência. Profissionais passaram décadas dominando Photoshop e Premiere Pro. Trocar significa reaprender workflows, perder atalhos musculares, refazer templates. O custo cognitivo da migração é altíssimo.
A Apple sabe disso. Por isso mira em novos criadores que ainda não construíram essa dependência. Quem está começando hoje pode aprender Final Cut Pro em vez de Premiere Pro e nunca sentir falta.
A estratégia de longo prazo
A Apple não espera matar a Adobe amanhã. O objetivo é controlar o futuro. A empresa quer que a próxima geração de criadores cresça usando ferramentas Apple, criando uma nova onda de dependência, mas agora ao seu favor.
Enquanto isso, a Adobe diversifica. Ela investe pesado em IA, com Adobe Firefly gerando imagens e Adobe Sensei automatizando tarefas. A empresa também explora web apps e compatibilidade mobile, áreas onde a Apple ainda engatinha.
O mercado criativo vale mais de US$ 200 bilhões anuais. Há espaço para ambas, mas com perfis diferentes. A Adobe continuará dominando agências, estúdios e profissionais multiplataforma. A Apple vai capturar criadores independentes, produtores de conteúdo digital e quem valoriza performance acima de tudo.
A Adobe não vai acabar. Mas pela primeira vez em décadas, ela tem um concorrente de peso real disputando território.

