A marca prova que imperfeição vale mais que perfeição quando o assunto é conexão humana.
A Cadbury acaba de lançar uma das campanhas publicitárias mais emocionantes do ano. E o protagonista não é uma barra inteira de chocolate, mas sim metade de uma. A ação “Homesick”, criada pela VCCP, já está sendo discutida como um dos exemplos mais autênticos de storytelling emocional da indústria.
O filme mostra duas irmãs separadas por 6.000 milhas. A mais velha vive em Kuala Lumpur, enquanto a caçula permanece no Reino Unido. Depois de uma videochamada, a irmã que mora na Malásia recebe um pacote da família. Dentro? Uma barra de Cadbury Dairy Milk pela metade, presa por um minúsculo adesivo de alien.
O que torna um gesto simples tão poderoso
O conceito desenvolvido pela marca é simples, mas certeiro: gestos imperfeitos carregam mais significado que presentes polidos. A escolha de mostrar um chocolate meio comido, ao invés de uma barra inteira, rompe com o padrão de propaganda emocional. Aqui, não há lágrimas manufaturadas ou abraços em câmera lenta. Há realidade: irmãos se amam e se provocam ao mesmo tempo.

A Cadbury aposta na imperfeição como estratégia criativa. Enquanto outras marcas investem em perfeccionismo estético, com close-ups milimétricos de produtos intactos, a gigante do chocolate abraça a desordem da vida real. E, ao fazer isso, cria identificação onde outras marcas geram apenas admiração distante.
O adesivo de alien é o detalhe que amarra tudo. A maioria das marcas o cortaria por ser específico demais ou “fora do padrão”. Mas a Cadbury entende que é exatamente esse tipo de piada interna entre irmãos que torna a história crível. É o tipo de coisa que faz você lembrar das suas próprias relações familiares.
Por que a imperfeição funciona melhor que a perfeição
Elise Burditt, diretora sênior de marketing da Mondelez no Reino Unido, resume o núcleo da campanha. “Generosidade não é sobre perfeição. É sobre ser atencioso. Até uma barra de Dairy Milk com um pedaço faltando pode carregar o calor de casa”, afirma.
O timing também é estratégico. A solidão tem aumentado entre a Geração Z, e pequenos gestos de conexão estão gerando respostas emocionais mais fortes. A Cadbury posiciona o chocolate como veículo de afeto, criando razões de compra que vão além de sabor ou preço.
Três padrões emergem desta campanha:
Imperfeição sinaliza autenticidade. Uma barra de chocolate mordida gera mais conexão que um presente embalado com perfeição, porque mostra personalidade além de atenção.
Especificidade cultural supera emoções genéricas. As ruas de neon de Kuala Lumpur e a dinâmica real entre irmãs são mais honestas que imagens de banco de famílias se abraçando em salas de estar genéricas.
Consistência de longo prazo compensa. A Cadbury vem construindo essa narrativa há anos, permitindo que conte histórias complexas sobre generosidade sem precisar recomeçar a cada campanha.
Como a Cadbury construiu credibilidade emocional
A campanha “Homesick” não é isolada. Ela faz parte da plataforma “There’s a Glass & a Half in Everyone”, que a marca desenvolve desde 2018, com filmes anteriores como “Mum’s Birthday”, “Fence”, “Memory” e “All Heroes, No Zeros”.
Essa consistência permite que a Cadbury explore nuances emocionais sem precisar reexplicar seu posicionamento a cada nova ação. O público já entende que a marca não está vendendo chocolate, está vendendo momentos de conexão humana.
A escolha de trabalhar com o diretor Steve Rogers pela Biscuit Filmworks em parceria com o estúdio Girl&Bear garantiu uma execução cinematográfica que não parece propaganda. A veiculação prioritária em TV e YouTube amplificou o alcance orgânico, com o filme sendo compartilhado massivamente em redes sociais sem investimento adicional em mídia paga.
Esse tipo de viralização espontânea só acontece quando o conteúdo reflete experiências reais. As pessoas não compartilham anúncios, elas compartilham histórias que as fazem sentir algo verdadeiro. E é exatamente isso que a Cadbury consegue entregar: autenticidade emocional em um mercado saturado de perfeccionismo artificial.
A marca entende que, no fim das contas, ninguém lembra de barras de chocolate perfeitamente embaladas. Mas todo mundo lembra daquele chocolate meio comido que alguém guardou pra você, porque sabia que você ia gostar. E esse é o tipo de memória que vale ouro no marketing moderno.

