E-mail revela que CEO da Meta considerou abandonar estudos internos após vazamento sobre saúde mental de jovens.
Um e-mail de Mark Zuckerberg revelado nesta quinta-feira mostra que o CEO da Meta considerou mudar radicalmente a forma como a empresa pesquisa impactos sociais de suas plataformas. A mensagem foi enviada em 15 de setembro de 2021, um dia após o Wall Street Journal publicar documentos internos revelando que 32% das adolescentes relataram que o Instagram piorava a percepção sobre seus próprios corpos.
A estratégia da Apple como exemplo
No e-mail endereçado a executivos de alto escalão, incluindo Sheryl Sandberg e Nick Clegg, Zuckerberg observou que a Apple aparentemente evita críticas por simplesmente não conduzir pesquisas sobre danos em suas plataformas. “A Apple, por exemplo, não parece estudar nada disso”, escreveu o CEO. “Pelo que entendo, eles não têm ninguém revisando ou moderando conteúdo e nem sequer têm um fluxo de denúncias no iMessage.”
Segundo Zuckerberg, a gigante de Cupertino adotou a abordagem de que as pessoas são responsáveis pelo que fazem na plataforma. Ao não assumir essa responsabilidade, a Apple não criou equipes nem estudos examinando os impactos de suas escolhas. “Isso funcionou surpreendentemente bem para eles”, afirmou.
O paradoxo da transparência
O fundador da Meta argumentou que a empresa enfrenta mais críticas justamente por reportar mais casos de material de abuso sexual infantil (CSAM), o que “faz parecer que há mais desse comportamento em nossas plataformas”. Ele também mencionou que quando a Apple tentou implementar varreduras de CSAM em fotos do iCloud, foi duramente criticada por defensores da privacidade, o que pode ter encorajado a empresa a manter sua abordagem original de menor intervenção.
YouTube, Twitter e Snapchat também foram citados como exemplos de plataformas que adotam estratégias semelhantes. “O YouTube parece intencionalmente enterrar a cabeça na areia para ficar abaixo do radar”, escreveu Zuckerberg. O Twitter e o Snapchat, segundo ele, podem simplesmente não ter recursos para esse tipo de pesquisa.
O contexto legal por trás da revelação
O documento foi revelado como parte de um processo movido pelo procurador-geral do Novo México, Raúl Torrez, que acusa a Meta de posicionar enganosamente seus produtos como seguros para adolescentes. A ação alega que a empresa estava ciente de escolhas de design prejudiciais que viciavam crianças e permitiam que predadores prosperassem.
Frances Haugen, ex-funcionária da Meta, foi a fonte dos documentos originais vazados ao Wall Street Journal. Sua denúncia desencadeou uma série de investigações e processos contra a empresa.
A reação interna da Meta
Pelo menos dois executivos responderam ao e-mail defendendo a continuidade de algum nível de pesquisa. Javier Olivan, então vice-presidente de produtos centrais, escreveu: “Vazamentos são ruins e continuarão acontecendo, a menos que encontremos uma maneira de erradicá-los. Dado isso, ainda vale a pena tentar entender essas questões? Acho que é a coisa responsável a fazer.”
David Ginsberg, vice-presidente de produto, concordou: “Acho que o trabalho interno é importante para fornecer um bom produto e uma boa experiência do usuário, separado e à parte de quaisquer objetivos de questões sociais.”
A estratégia que prevaleceu
Dias depois, Guy Rosen, executivo responsável por integridade, apresentou várias opções de reorganização, desde centralizar equipes que pesquisam tópicos sensíveis até, na opção mais extrema, dissolver essas equipes e terceirizar o trabalho quando necessário. A empresa optou pela centralização, anunciando a mudança antes do depoimento do CEO do Instagram, Adam Mosseri, ao Congresso.
Andy Stone, porta-voz da Meta, declarou ao The Verge que a empresa “se orgulha de seu compromisso contínuo em fazer pesquisas transparentes e líderes do setor”. A companhia afirma usar essas informações para fazer melhorias significativas, como a introdução de contas para adolescentes com proteções integradas.
O dilema entre pesquisa e percepção pública
O e-mail de Zuckerberg expõe uma tensão fundamental que as empresas de tecnologia enfrentam: quanto mais estudam os danos potenciais de suas plataformas, mais munição fornecem para críticos e reguladores. Por outro lado, não pesquisar significa operar no escuro, potencialmente causando danos não documentados.
A estratégia da Apple de manter um perfil discreto parece ter funcionado do ponto de vista de relações públicas. Enquanto Meta, Facebook e Instagram são constantemente escrutinados por impactos na saúde mental, a Apple raramente enfrenta o mesmo nível de crítica, apesar de operar plataformas com bilhões de usuários.
O caso do Novo México deve trazer à tona mais documentos internos nas próximas semanas, com os argumentos iniciais previstos para começar na próxima semana. Casos semelhantes tramitam na Califórnia, prometendo manter o debate sobre segurança digital de adolescentes em evidência durante todo o ano de 2026.

